INTERPRETAÇÃO
TEXTUAL:
Leia com atenção o texto abaixo e responda às questões:
A MÁQUINA
Morreu
uma tia minha. Ela morava sozinha, não tinha filhos. A família toda foi até lá,
num final de semana, separar e dividir as coisas dela para esvaziar a casa.
Móvel, roupa de cama, louça, quadro, livro, tudo espalhado pelo chão, uma
tremenda confusão.
Foi quando ouvi meus filhos me
chamarem.
— Mãe! Maiê!
— Faaala.
Eles apareceram, esbaforidos.
— Mãe. A gente achou uma coisa
incrííível. Se ninguém quiser, essa coisa pode ficar para a gente? Hein?
— Depende. Que é?
Eles falavam juntos, animadíssimos.
— Ééé... uma máquina, mãe.
— É só uma máquina meio velha.
— É, mas funciona, está ótima!
Minha filha interrompeu o irmão mais novo, dando uma
explicação melhor.
— Deixa que eu falo: é assim, é uma máquina, tipo
um... teclado de computador, sabe só o teclado? Só o lugar que escreve?
— Sei.
— Então. Essa máquina tem assim, tipo... uma
impressora, ligada nesse teclado, mas assim, ligada direto. Sem fio. Bem, a
gente vai, digita, digita...
Ela ia se animando, os olhos brilhando.
— ... e a máquina imprime direto na folha de papel
que a gente coloca ali mesmo! É muuuito legal! Direto, na mesma hora, eu juro!
Ela jurava. Fiquei muda. Eu que jurava que não sabia
o que falar diante dessa explicação de uma máquina de escrever, dada por uma
menina de 12 anos. Ela nem aí comigo. Continuava.
— ... entendeu como é, ô mãe? A gente, zupt, escreve
e imprime, até dá para ver a impressão tipo na hora, e não precisa essa coisa
chatérrima de entrar no computador, ligaaar, esperar hoooras, entrar no world,
de escrever olhando na tela e sóóó depois mandar para a impressora, não tem
esse monte de máquina tuuudo ligada uma na outra, não tem que ter até
estabilizador, não precisa comprar cartucho caro, nada, nada, mãe! É muuuito
legal. E nem precisa colocar na tomada! Funciona sem energia e escreve direto
na folha da impressora!
— Nossa, filha...
— ... ah, mas só tem duas coisas que são meio chatas:
não dá para trocar a fonte e nem aumentar a letra, mas não tem problema não!
Vem, que a gente vai te mostrar. Vem...
Eu parei e olhei, pasma, a máquina velha. Sensacional
pensar assim. Eles davam pulinhos de alegria.
— Mãe. Será que alguém da família vai querer? Hein?
Ah, a gente vai ficar torcendo, torcendo para ninguém querer, para a gente
poder levar lá para casa, isso é o máximo! O máximo!
Bem, enquanto estou aqui escrevendo nesse meu
antiquado "teclado", ouço de longe o plec-plec da tal máquina
maravilhosa, que, claro, ninguém da família quis, mas que aqui em casa já deu
até briga. Está no meio da nossa sala de estar, em lugar nobre, rodeada de
folhas e folhas de textos "impressos na hora" pelos meus filhos.
Incrível, eles dizem, plec-plec-plec, muito legal essa máquina mesmo,
plec-plec-plec
Céus. Achei que tinha acabado, quando a minha filha
vem de novo falar comigo, toda decidida e animada, com um texto recém-escrito
(sem ligar nada na tomada) na mão.
— Mãe. Me ajuda a fazer uma coisa muito legal que eu
morro de vontade de fazer?
— O que é?
Ela deu um sorriso, com um ar sonhador.
— Ah, eu queria tanto colocar isso dentro de uma
carta... no correio, com envelope, selo colado... nunca fiz isso, mãe... ahhh,
me ajuda?
Lúcia Carvalho.
1) A crônica gira em torno da
descoberta de uma antiga máquina de escrever pelas crianças. Como elas reagem
diante dessa descoberta? Por quê?
2) A cronista explora o lado
pitoresco e engraçado dessa situação: o que é antigo (a máquina de escrever)
parece moderno e o que é moderno (o computador) parece ultrapassado. Que
elementos da máquina de escrever são valorizados pelas crianças?
3) A utilização da máquina para
escrever cartas e a necessidade de colocá-las no correio despertaram o
interesse de uma das crianças. A partir dessa informação, responda:
O que é possível deduzir sobre o
meio que ela, provavelmente, utiliza para se comunicar por escrito?
4) A autora reproduz o jeito como
a menina fala ao explicar como era a máquina de escrever. E diz que a máquina
“zupt, escreve e imprime” e o computador precisa “ligaaar, esperar hoooras”; “e
sóóó depois mandar para a impressora”.
a) O que essa forma de registro
revela sobre o que a menina concluiu?
b) Que trecho abaixo expressa com
maior intensidade e emoção da menina diante da máquina de escrever?
( ) “É muuuito legal.”
( ) “Mãe. A gente achou uma coisa incrííível.”
( ) “- Mãe. Será que alguém da família vai
querer?”
5) A máquina, considerada
antiquada pela cronista, fez sucesso e ocupou um lugar nobre na casa.
a) Que expressões no texto
informam ao leitor em que lugar ela foi colocada pelas crianças e como ela se
encontra?
b) O que essas expressões revelam
sobre o sentimento das crianças pelo objeto?